A felicidade é uma ideia velha?

A felicidade surge junto com a consciência humana, junto com a dúvida, a decisão e a liberdade.
É uma ideia.
Não existe. É um sonho. Inalcançável. Impalpável. Escorre por entre os dedos. Desliza. Arredia. Mais escorregadia que uma enguia. Não existe. Não é. Um sonho. Esperança. Irreal. Ilusória. Passageira. Infantil. Ingênua.
A felicidade não é nada.
A felicidade é só uma palavra.
Aquele que procura felicidade é um tolo.
Deve-se esquecê-la para ser feliz. Tirar-la de foco.
Não persegui-la. É esforço em vão.

Não tente preencher o vazio.
Sinta o vazio.
Abrace o vazio.
Ame o vazio.
Pois o vazio é você.
Você não é nada.
E é incrível como isso é aliviante, tira um peso das costas.
Não há responsabilidade de ser nada.
Nada é importante.
O nada é importante.

Nulisseu.
Eu não existo.
Existir. Palavra fria.
Se eu sou, sou uma dúvida.
Um grande ponto de interrogação.
De incertezas, vírgulas, sem pontos finais, sem conclusões, sem verdades.
Só um espírito faminto.
Faminto por o quê?
Alma vagante pela terra.
Rastejante. Preguiçosa. Sem destino.

Standard

Fé e ideias

Ao deparar-se com uma figueira infrutífera, Jesus ordena que ela se extinga, fazendo assim a árvore murchar e morrer. Entusiasmados e surpresos, seus discípulos lhe questionam como ele foi capaz de tal feito, Jesus lhes responde que se os mesmos dotassem de apenas uma fração de sua fé, seriam capazes de comandar montanhas a se moverem. Ao ler isso tomo a liberdade de fugir das interpretações tradicionais e religiosas e viajar um pouco mais. Acredito que ele se refere ao fato de que somente aqueles portadores de fé, ou crença total, que acreditam piamente, serão capazes de alcançar êxito em suas ações.

Não é que a montanha vá se mover sozinha, por meio de milagre ou magia. Eu acredito tanto nessa possibilidade que vou dedicar toda minha vida a desenvolver uma forma de movê-la e mesmo que morra antes disso meu trabalho influenciará outros que darão continuidade ao meu sonho e eventualmente a montanha será movida.

Como os Heráclidas que tanto sonharam e acreditaram em seu direito de posse das terras tomadas de seu progenitor Héracles, que somente depois de trés gerações e quase um século de luta conseguiram àquilo que lhes parecia seu por direito.

A fé contagia. Assim foi com Jesus, Siddartha Gautama, Platão, Aristóteles, Sócrates, Descartes, Hegel, Espinosa. Todos tiveram tanta fé e confiança em suas idéias que por mais que equivocadas ou incompletas, as mesmas sobrevivem ao lado seus nomes.

Não necessariamente as ideias do pensador são o próprio pensador, mas sim apenas ideias que foram fortemente representadas por essa instância do pensamento humano. Alguns chegaram nas mesmas idéias por conta própria, outros foram influenciados pela fé do pensador e passaram a acreditar e ainda acreditam.

Mesmo que anos depois Kant discorde de Aristóteles, ou Espinosa se oponha à Platão, as idéias são mais fortes e sobrevivem por causa da fé nelas empregadas.

O homem que construiu o primeiro arranha-céu não foi nem o primeiro nem o último a acreditar nessa possibilidade, foi apenas o que mais intensamente acreditou nela. Outros acreditaram e tentaram, mas não conseguiram, pois lhes faltou fé na ideia. Quem acredita faz por onde tornar aquilo em realidade.

Aqueles que trabalharam na construção do arranha-céu também acreditavam, mas nunca estariam ali se não fosse pelo soberano fiel à ideia, que crê naquilo mais que na sua própria vida.

Para alcançar isso, somente com o controle da mente proposto por Buda, vejo a possibilidade de sucesso, pois seu corpo vai dizer que não é possível, sua mente vai te trair e tentar te impedir de acreditar e trabalhar na ideia. As pessoas ao seu redor vão rir e te desmotivar. Muitos dirão ser impossível, o mundo te atrapalhará.

Somente se tua fé superar tudo isso, serás capaz de dominar tua mente e teu corpo, vencer tuas batalhas internas, enfrentar o mundo de frente, prová-lo errado e transformar tuas idéias em realidade.

Standard

A respiração

Ao meditar tento concentrar-me na respiração. Quando estou sentindo que minha mente se perde em pensamentos, inicio um exercício de quatro fases.

Na primeira inspiro e sinto toda alegria do meu corpo ao receber o ar e usá-lo, inflando meu tórax. Na segunda, seguro esse ar e por isso meu corpo começa a reclamar e o que era tão benéfico começa a se tornar venenoso dentro de mim. Seguro até ficar quase insuportável e dai segue a terceira fase.

Expiro todo ar que me sufocava e meu corpo regojiza de prazer e alívio, estava eu a cometer o pecado do apego. Apego ao ar que foi tão útil e agradável, mas que agora não me pertence mais e como num passe de mágica se transforma em algoz de minha ruína enquanto me prendo à ele.

No quarto passo, cometo outro pecado, ao me negar o ar essencial para a vida e dessa maneira crio um estado de alerta e desespero por todo meu corpo que se torna tão insuportável a ponto de me forçar à voltar para primeira fase, agora muito mais satisfatôria e prazerosa do que jamais foi antes, meu corpo agradece em toda sua extensão ao milagre da respiração e finalmente estou acordado novamente.

Isso me faz refletir sobre o processo de respiração, que se repete a todo instante de minha vida e nunca percebo tal aventura.

A inspiração e a expiração são a antítese uma da outra, porém não existem em solidão. Não é possível gozar apenas de uma das duas. São completamente opostas, porém essenciais uma a outra. Juntas formam uma coisa só, a respiração. São finalmente, apenas um.

Essa dança sagrada se repete ao longo de nossa vida e não percebemos, e nela repousa o segredo da vida.

Como yin e yang, o bem e o mal, o quente e o frio, o certo e o errado, inspiração e expiração caminham juntas em perfeito balanço, uma média perfeita, o caminho do meio, o equilíbrio.

Sempre que tenta-se agarrar à um dos lados há dor e sofrimento.

Standard