Heavy Metal

Ouvindo músicas que marcaram meu passado como criança e adolescente, sempre descubro coisas novas e surpreendentes.
Os álbuns Spider’s Lullabye do King Diamond, Killers e Iron Maiden marcam um dia muito interessante da minha vida.
No dia em que fui pro Halleluya com minha namorada, fiquei acordado a noite inteira ouvindo músicas cristãs que eu não gostava realmente, despite the fact das músicas em si serem muito boas, muito bem tocadas e estruturadas, com belas melodias e bons instrumentistas.
Aproveitei e me diverti ao lado da minha namorada, o clima de festa era contagiante e me curti bastante.
Mas como um bom adolescente astuto, aproveitei e levei comigo um mp3 player que era o meu chodô e dentro dele fiz questão de colocar os álbuns supracitados, pois tratavam-se das músicas que estavam em voga na minha intenção musical da época, e não sei se premeditadamente, destoavam completamente com o clima e os temas cristãos daquele evento.
O prazer que tive ao ouvir os acordes dissonantes das canções de King Diamond, dentro do ônibus voltando pra casa é indescritível. Não consigo esquecer aquela sensação. Eu estava curtindo muito, cantando e frescando com a minha namorada, que dividia os fones comigo.
Eu me senti tão bem, em ser diferente de todas aquelas pessoas e estar contente em mim mesmo e em encontrar prazer musical onde quer que eu estivesse através do meu aparelho chinês—que não durou muito, diga-se de passagem.

Um boa explicação para todo esse prazer, talvez seja minha constante privação desse prazer, pois nunca consegui manter esses aparelhinhos vivos por mais que seis meses, e minha liberdade musical se limitava muito, sem computador, nem internet, nem mp3 player.
Eu estava preso aos mesmo CDs e DVDs de sempre, e muito me custava para conseguir novas músicas, por conta da minha fraca lista de contatos.

Ainda no mesmo dia, a energia da música vinda do meu mp3 me incendiou de uma maneira tão grande que mesmo depois de uma noite toda em pé, acordado, cheguei em casa ao amanhecer totalmente acordado.
E embalado pelo som de Iron Maiden em seu primeiro álbum, me empenhei na realização de uma tarefa caseira costumeiramente odiada por mim, a faxina.
Essa era uma atribuição que recebi junto com a minha adolescência e com a perda de uma empregada, e a mudança para uma casa menor, nesse caso um apartamento.
Eu simplesmente odiava fazer aquilo, por uma série de motivos que só um adolescente pode entender.
Mas nesse dia a alegria da música entrando diretamente nos meu ouvidos era tão grande, que eu não pestanejei nem enrolei como era de costume, fui direto ao ponto e me diverti—talvez pela primeira vez—fazendo uma tarefa doméstica.

Ouvindo esse CD novamente, relembro e revivo todas essas memórias e junto com elas crio toda uma nova perspectiva sobre a música em si.

No final das contas a vida tem muito disso, seu futuro sendo construído por reencontros com o passado.

Agora entendo as letras e já não me animo tanto com os agitos e rapidez dos ingleses. Analiso-os friamente e sempre me questiono o que eles querem me dizer, e o que eles esperam que eu sinta e pense ao escutar sua música.

O primeiro CD do Iron Maiden sempre foi um favorito para mim e não deixou de ser só porque eu fiquei mais velho e mais chato. Ainda me agrada muito e não sou capaz de dizer se o que me faz gostar dele é a nostalgia ou realmente a música.
Ainda assim, trata-se de uma obra marcante, e à parte do que normalmente se entende por Iron Maiden, as músicas ainda não haviam caído em um padrão, motivos marcantes ainda não tinha sido criados, estilos de frases musicais características ainda não haviam surgido. Não obstante, um ouvinte assíduo e aguçado pode encontrar aqui e ali, características sutis que viriam a se tornar fortes demarcadores do som da banda.
Tudo isso a parte, grandes clássicos dessa gigantesca iniciativa musical, já surgiam aqui, e além disso, músicas muito particulares, como Strange World, que despertam em mim um sentimento de imensa alegria e um pouco de melancolia, trazem à tona uma certa vontade de carinho, amor, uma música carinhosa, gentil, muito peculiar para a banda.
Adoro essas músicas que fogem completamente da norma de um grupo musical e que normalmente surpreenderiam ouvintes menos “futricadores”, quando avisados de quem se tratava. Tipo Solitude to Black Sabbath, uma música completamente fora do padrão de composição da banda.
Running Free é tão cheia de energia e tem um ritmo contagiante, foi cativante desde a primeira escutada, e talvez tenha sido a maior motivadora no dia fatídico da minha melhor faxina.

Passando para o The Killers, já consigo sentir um pouco mais do que eu poderia chamar de um espírito Iron Maiden dominante, motivos que viriam a se tornar padrões nas composições da banda, frases e melodias, tempos e ritmos bem estabelecidos.
O álbum seta um ritmo bem específico e te mantém em uma onda de agitação do meio pro fim.
Claro que quando jovem a música Murders In The Rue Morgue, me despertou uma certa curiosidade, e como um ávido “fuçador” musical, rapidamente descobri as origens de tal título inusitado, o que me despertou mais ainda a curiosidade por investigar a fundo as origens da música.
Graças à eles fui introduzido à Edgar Allan Poe, e li seu conto policial divertido e com um final surpreendente, e me apaixonei. Continuei lendo e apreciando seu trabalho até hoje, apesar de ser um pouco avesso à toda a negatividade e escuridão que ele traz ao papel. Mas o Otávio de outrora, gostava disso e se fascinava, e namorava com a obscuridade, a escuridão, as trevas. Tudo se encaixa perfeitamente nesse caso.
Hoje, como homenagem ao meu passado, e a esses encontros tão afortunados, escutei a música ao mesmo tempo em que lia os primeiros parágrafos da obra homônima de Poe. É algo que só o milagre desses mágicos aparelhos eletrônicos pode proporcionar.
Aquilo que me era tão escasso antigamente, agora está livre e abundante na minha frente, e tomo atitudes justamente contrárias às que gostaria de tomar quando não tinha tal ferramenta ao meu alcance.
Acho que a facilidade da informação, e a quantidade exorbitante dela, acabam me deixando meio atordoado e perco o interesse por simples músicas e momentos simples como eu tinha antigamente.
Uma vida simples, escassa de tantos recursos às vezes pode ser reveladora, sobre o que realmente importa e o que realmente faz falta, e o que é supérfluo e desnecessário.

As letras com temas obscuros do Killers entoam perfeitamente com a obra e a pegado do Poe. E servem perfeitamente à adolescentes perturbados por conflitos internos, hormonais, familiares e sociais.
O turbilhão de coisas que se passam na cabeça de um adolescente, somados às novas sensações e aos desbalanços hormonais são um palco perfeito para música como Innocent Exile e Another Life que trazem à tona os pensamentos que se passam na cabeça de muitos jovens.
O som rápido e distorcido das guitarras, junto com o peso do baixo e o ritmo agitado da bateria, guiam o coração dos jovens ouvintes, além da voz e as letras do cantor, para mundos fantásticos, histórias sombrias, pensamentos obscuros, sentimentos escondidos.
Tudo isso figura uma experiência muito libertadora e aliviante, pelo menos era o que eu sentia.
Tudo que o jovem Otávio não conseguia dizer e foi guardando para si, era liberado pelo peso da música, era como um peso saindo dos ombros.

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