Retrato de um passado recente

Tem certas coisas que eu só percebo depois, principalmente quando eu fumo maconha.
Eu fico pensando no passado, relendo as coisas, revirando, remoendo… e vou me tocando e revivendo as situações em memória, refletindo sob uma nova perspectiva gerada pelo uso das drogas.

Na verdade tudo são hábitos.
Eu preciso de um lugar calmo e silencioso pra escrever.
Eu preciso de um método.

Meu hábito é fumar maconha na praça e voltar de manhã sozinho e reflexivo.
A madrugada têm muito silêncio e poucas pessoas pra distrair. A cabeça pensante já foi iniciada pela caminhada. Eu chego em casa pronto pra escrever.

É como eu observei uma vez, se eu não escrever, minha cabeça estoura de tantos pensamentos.
Tanto é, que dos cadernos anteriores, eu só tive coragem de publicar poucos textos, muito bem selecionados.

Mas voltando aos hábitos: na caminhada, voltando da praça, — escrevendo em linguagem falada — comecei a refletir sobre meus hábitos. Um deles é esse de fumar maconha e vir pra casa e tal… um outro, que eu inventei à um tempo atrás, era ir pro muay thai todo dia às seis horas. Esse se tornou um hábito angular, ou seja, um hábito que cria outros hábitos, que acabam se transformando em uma rotina.

Umas duas semanas atrás, a rotina que tinha se formado era essa: acorda de manhã, caga, vai pro muay thai, café da manhã, limpa alguma coisa em casa, vai pra faculdade, senta num laboratório, abre o notebook e tenta trabalhar o máximo que der — com uma pausa pro almoço — até dar a hora de voltar pra casa e ir pro muay thai de novo, comer, não fumar, não beber e seguir uma dieta específica sem açúcar…
Tudo isso pra participar de uma luta onde tudo dá errado, gasto todo meu dinheiro, tomo um pau, levo um knockout, travo meu maxilar e fico com uma dor de cabeça eterna.
Tive que voltar pra casa às pressas, melando assim todos meus planos de um lazer pós-prova. Fiquei sem rumo, trancado num quarto, em depressão, sem conseguir mastigar nada por três dias.

Em compensação, eu consigo apresentar o TCC vuado e me livro, ganhando assim umas mini-férias.

Agora, com a rotina quebrada, fico novamente sem rumo e sem o que fazer.
Fico perdido e parado somente porque alguns planos deram certo e outros não.

Ai começo a inventar coisas pra fazer, mas não cuido dos meus problemas anteriores, — que eu mesmo causei — tipo esse maxilar travado que eu tenho vergonha de ir num hospital e tratar.
Ignoro meus problemas. Por que não sei como — ou sei mas tenho medo — resolvê-los.

Me afogo em solidão, como repetem os manjados, e fico brincando de fugir da rotina, ignorando os problemas, remoendo as derrotas e esquecendo, ou não comemorando, as vitórias.

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