Beleza

Quando eu jogo um papel no chão, antes dele cair, ele é livre por um segundo — e me parece que ele se diverte muito com isso.
Se alegra, comemora, aproveita e faz de tudo para que aquele momento nunca acabe.
O ar e o papel dançam, se amam — vivem um romance de um segundo. Parecem fazer carinho um no outro.
É a liberdade de um pedaço de papel, que passou um tanto tempo confinado na inércia e agora se regozija junto ao ar —o abraço do ar— e se solta, e pula, e dança, e voa, e rodopia, e comemora.
Ele tem que aproveitar, pois o chão o espera e junto do chão, a estagnação.
Mas agora há esperança e liberdade. A oportunidade do ar se compadecer com o pobre pedaço de papel rasgado e soprar mais forte pra ele voar mais um pouquinho.

Muito mais sortuda é a sacola de plástico. Quanto mais fininha melhor. Foi feita pra brincar com o vento.
O vento já é a animação do ar. Animar é dar vida e o vento é ar vivo.
A vida do vento entra na sacola e dá luz à uma manifestação momentânea de vida em um objeto inanimado.
Inanimado já diz: sem vida.
O artificial vira natural por dois segundos.
O lixo ganha vida e manifesta a arte de viver.

Eu tô parafraseando a reflexão do filme Beleza Americana.
Sempre que vejo um sacola voando, lembro desse filme e da cena final.

Quando eu joguei o papel que encontrei dentro do meu caderno — e que provavelmente esteve lá por um bom tempo — eu senti a experiência da reflexão acontecendo comigo, e daí eu comecei a realmente entender e desenvolver por conta própria.
Eu senti o papel: a personificação do papel – e me projetei nele. Tentei me sentir como ele. Tive empatia pelo pedaço de papel.
Ao invés de estar sujando a rua, eu estava alimentando minha alma e libertando algo preso.

Tá ligado aquela sensação de dever cumprido? Quando você respira fundo e relaxa os ombros — acabei de sentir isso.
Parece que meu plano tá dando certo.

“I guess I could be pretty pissed off about what happened to me, but it’s hard to stay mad when there’s so much beauty in the world. Sometimes I feel like I’m seeing it all at once, and it’s too much; my heart fills up like a balloon that’s about to burst. And then I remember to relax, and stop trying to hold onto it. And then it flows through me like rain, and I can’t feel anything but gratitude—for every single moment of my stupid, little life. You have no idea what I’m talking about, I’m sure; but don’t worry… you will someday.”
Beleza Americana

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