Resumo da doutrina de Sócrates e Platão

A alma se extravia e se perturba quando se serve do corpo para considerar qualquer objeto; tem vertigens como se estivesse ébria, porque se liga a coisas que são, por sua natureza, sujeitas a mudanças; ao passo que, quando contempla sua própria essência, ela se dirige para o que é puro, eterno, imortal e, sendo da mesma natureza, fica aí ligada tanto tempo quanto o possa; então seus descaminhos cessam porque está unida ao que é imutável, e esse estado da alma é o que se chama a sabedoria.

Enquanto tenhamos nosso corpo, e a alma se encontre mergulhada nessa corrupção, jamais possuiremos o objeto dos nossos desejos: a verdade. Precisamos amar buscar a verdade, mas jamais tenhamos a presunção de defendê-la. Com efeito, o corpo nos suscita mil obstáculos pela necessidade que temos de cuidá-lo; ademais, ele nos enche de desejos, de apetites, de temores, de mil quimeras e de mil tolices, de maneira que, com ele, é impossível ser sábio um instante. Livres da loucura do corpo, então, conversaremos, é de esperar-se, com homens igualmente livres, e conheceremos por nós mesmos a essência das coisas.

O corpo conserva os vestígios bem marcados dos cuidados que com ele se tomou, ou dos acidentes que experimentou; ocorre o mesmo com a alma. Quando ela está despojada do corpo, carrega os traços evidentes do seu caráter, de suas afeições e as marcas que cada ato da sua vida lhe deixou. Assim, a maior infelicidade que possa atingir o homem, é a de ir para o outro mundo com uma alma carregada de crimes. Tu vês, Callicles, que nem tu, nem Pólus, nem Górgias, não saberíeis provar que se deve levar uma outra vida que nos será útil quando estivermos lá embaixo. De tantas opiniões diversas, a única que permanece inabalável, é a que vale mais receber que cometer uma injustiça e que, antes de todas as coisas, deve-se aplicar, não em parecer homem de bem, mas a sê-lo. (Diálogos de Sócrates com seus discípulos, na sua prisão).

De duas coisas uma: ou a morte é uma destruição absoluta, ou ela é a passagem de uma alma para um outro lugar. Se tudo deve se exterminar, a morte será como uma dessas raras noites que passamos sem sonho e sem nenhuma consciência de nós mesmos. Mas se a morte não é senão uma mudança de morada, a passagem para um lugar onde os mortos devem se reunir, que felicidade nele reencontrar aqueles a quem se conheceu!

Chamo homem vicioso a esse amante vulgar que ama o corpo antes que a alma. O amor está por toda parte na Natureza, que nos convida a exercitar nossa inteligência; é encontrado até nos movimentos dos astros. É o amor que dá a paz aos homens, a calma ao mar, o silêncio aos ventos e o sono à dor. A virtude não se pode ensinar; ela vem por um dom de Deus àqueles que a possuem.

É uma disposição natural, a cada um de nós, se aperceber bem menos dos nossos defeitos que dos de outrem. Não é preciso nunca retribuir injustiça por injustiça, nem fazer mal a ninguém, qualquer seja o mal que se nos tenha feito. Poucas pessoas, entretanto, admitirão este princípio, e as pessoas que estão divididas não devem senão se desprezar umas às outras.

Aquele que possui a virtude a adquire por seus esforços em existências sucessivas, em se despojando, pouco a pouco, das suas imperfeições. A graça é a força da qual Deus favorece todo homem de boa vontade, para se despojar do mal e para fazer o bem. Há sabedoria em não crer saber aquilo que tu não sabes. lsto vai endereçado às pessoas que criticam aquilo de que, frequentemente, não sabem a primeira palavra. Platão completa esse pensamento de Sócrates, dizendo: “Experimentemos primeiro torná-los, se isso é possível, mais honestos em palavras; se não, não nos preocupemos com eles, e não procuremos senão a verdade. Esforcemo-nos em nos instruir, mas não nos injuriemos”. É assim que devem agir os seguidores de quaisquer seitas filosófico-religiosas com respeito aos seus contraditores, de boa ou má fé.

O Espiritismo, na introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo, alega ter em Sócrates e Platão os seus precursores, e em Jesus, a exemplificação prática das máximas de perfeição moral que o homem deste mundo deve buscar. O Espiritismo não se caracteriza por uma religião senão pelas consequências filosóficas que produz.

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