Primeiros Passos da Ética – Clóvis de Barros Filho

Devemos entender por ética uma atividade intelectiva em conjunto que busca a identificação da melhor maneira de conviver.

É preciso admitir que a história do pensamento denúncia no mundo ocidental a existência de um grupo de personagens que recebeu o nome de pré-socráticos. Denunciamos o equívoco da nomenclatura, primeiro porque não são todos anteriores à Sócrates e segundo porque a reunião de todos sob essa denominação acaba apequenando e deslegitimando.

Eu observei que a primeira grande preocupação do pensamento filosófico foi identificar o que estaria por trás da aparente diversidade das coisas, e essa pergunta parte de uma premissa: A aparente diversidade das coisas é constituída por uma unidade material, por uma unidade fundamental de matéria; Então uns dirão que essa unidade fundamental de matéria é a água, outros a terra, o fogo, alguns dirão que as coisas se constituem a partir de um combinação desses quatro elementos, então se as coisas são diferente é por conta da diferente proporção que esses elementos tem em cada coisa.

Relevante: Não é a resposta, não correspondem com a verdade, mas importa pensar pelo pergunta, sobre a obsessão, que é o incômodo com o diverso, com o plural, diferente.
A verdadeira tendência de reduzir o complexo, plural, diferente à uma única realidade.
Por que insistir nesse cacoete, nessa preocupação, porque ao estudar a maneira como o homem atribui valor ao longo da história ao seu próprio comportamento, você perceberá a mesmíssima preocupação. As condutas humanas, tal como as coisas no mundo, são diferentes, diversas, plurais, mas existe uma preocupação imensa em reduzir essa aparente pluralidade à explicações unitárias, comuns e portanto, de certa maneira, a filosofia já começa assim com um certo desprezo pelo que é aparentemente plural.

Poderíamos destacar mais uma coisa, é o surgimento do conceito de essência. Que vem a ser aquilo que em uma coisa não é acidental, circunstancial, é essencial aquilo que sem a coisa não é o que é;
O que é que se pretende com isso? Mostrar que a aparente diversidade das coisas do mundo é acidental, porque as essências são as mesmas, existe por detrás da acidental pluralidade e diversidade das coisas e das pessoas, uma unidade essencial e portanto de certa maneira, o trabalho da filosofia é encontrar essa unidade essencial por detrás da acidentalidade plural.
Esse é o primeiro degrau.

Dentre esses pré-socráticos, muitos se destacam, nós vamos destacar um grupo em especial, que surge na ásia menor, que é grego porque a Grécia era grande, no olhar contemporâneo seriam Turcos, que vão atender pelo nome de escola pitagórica. Pitágoras, cada vez mais se acredita, não é uma pessoa, é um grupo, uma escola. Você teve o seu primeiro contato com Pitágoras pelo teorema, pelas hipotenusas e pelos catetos, mas o que importa a nós é que a primeira grande preocupação dos Pitagóricos não é a matemática, mas sim, bem como dos demais filósofos, a investigação sobre a vida boa e portanto de certa maneira, a matemática é apenas um meio, um instrumento, um caminho para uma vida boa.

Essa ideia de que a matemática não é um fim em si mesmo, mas é um instrumento, é exercício de aperfeiçoamento de si, implica entender que os Pitagóricos foram os primeiros na história do pensamento ocidental a destacar com clareza a separação entre o corpo e a alma e por isso, são considerados os primeiros filósofos dualistas, veremos ainda hoje, um pouco mais tarde, que Platão vai se inspirar diretamente nos pitagóricos para propor suas teorias.

A separação do corpo e da alma implica saber que, em primeiro lugar, o corpo é material, finito, em decomposição, em corrupção permanente, a alma por sua vez, é eterna, sempre existiu e sempre existirá, circunstancialmente a alma está coibida com um determinado corpo.

Espero que você entenda que se a alma circunstancialmente coabita com um determinado corpo é por essa coabitação não lhe é essencial, sim, ela é acidental. A alma conserva o que é essencial, estando ela fora de uma vida corpórea ou dentro de uma vida corpórea.
A frase mais central do pensamento Pitagórico: É preciso para a vida ser boa, garantir a purificação da alma e portanto, tudo que os Pitagóricos dizem e fazem tem a ver com essa preocupação com a purificação da alma. Sendo assim a matemática é uma forma particular desse exercício de purificação da alma, e porque?

Ora, o corpo é fonte de todos os males para o pensamento pitagórico e para muitos outros pensamentos que dele se inspiraram, então cabe à nós evitar que o corpo tiranize a alma e detenha o timão e as rédeas da nossa própria vida, razão pela qual é fundamental que quem faça isso seja a alma, e que acontece, no momento em que a alma está consagrada à sua atividade mais própria, inerente, característica, ela está tendo a oportunidade de um aperfeiçoamento progressivo e está evitando que o corpo à contamine com os seus apetites, inclinações e assim por diante, sendo assim a matemática é por conta da abstração numérica, a atividade número um da alma, atividade da alma por excelência, a matemática, nesse sentido, para os Pitagóricos, ainda é mais característica da alma, do que a própria filosofia, pois essa se serve de palavras que são passíveis de apresentar situações concretas de vida, a filosofia é exemplificável. A filosofia está muito mais próxima da vida cotidiana dos corpos do que a matemática, portanto a matemática é um tipo de atividade da alma, mais essencialmente espiritual do que propriamente a filosofia.

Não se trata de fazer matemática para descobrir verdades e para descobrir conhecimentos e para contribuir com a grandeza do conhecimento matemático. Nunca. A preocupação não é essa.
A preocupação é a própria salvação, é a preocupação espiritual por excelência, que é toda a preocupação filosófica do começo ao fim, que é você procurar a vida boa e se salvar do tudo que é ruim. E claro, entre as principais coisas ruins que a filosofia busca salvar o homem, é justamente o medo da morte, da finitude, decomposição, desaparecimento. Esse é o pior dos males e a filosofia nasceu para combate esse que é o pior dos males.
Podemos dizer que a filosofia concorre com a religião nessa tarefa, de fornecer ao homem proteção contra o medo da morte, mas é evidente que com outros recursos. Enquanto a religião salva o homem de fora, através de forças transcendentes, a filosofia propõem uma auto-salvação, uma salvação do homem pelo próprio homem através do uso da razão.

Perceba então que o que pretendiam os pitagóricos, ali cinco séculos antes de cristo, tem muito pouco a ver com o que pretendem os professores do IME, quando propõem teses de mestrado, doutorado e assim por diante, ali o que se pretende é a busca pelo aperfeiçoamento das ciências matemáticas. Os pitagóricos pretendiam a busca do aperfeiçoamento do matemático, do homem que produz o conhecimento, e a matemática é um mero instrumento para isso. Instrumento de purificação da alma.

Se você me perguntar, mas e daí? Eu te diria que existe por trás disso tudo que eu acabei de dizer, uma preocupação imanente. Fica evidente que nesse momento da história do pensamento, a ética é uma reflexão sobre a vida boa de cada um dos viventes. A ética é uma reflexão sobre vidas singulares. Eu me atreveria a dizer, cada um purificando a sua própria alma. E eu vou mais longe: O próprio artifício da matemática como método de purificação da alma já é revelador do quanto a ética se confundia nessa época com uma sabedoria existencial, é meio que cada um por si.

Por que eu tô destacando isso? Se você for observar o conteúdo, o significado, o sentido da ética hoje, verá que este não é o seu sentido contemporânea.
O sentido contemporâneo de ética tem a ver com convivência, com relação entre pessoas, justiça na ação de pessoas com base no efeito que produzem sobre outras.
Então nesse sentido nós temos uma concepção de ética e de justiça hoje, que não é exatamente a que nos propõem esses primeiros pensadores.
A purificação da alma é a palavra de toque. É claro que não é só matemática que ajuda, e há uma série de recomendações curiosíssimas para uma vida boa. Considerações de ordem dietética, como por exemplo no caso dos pitagóricos, não comer feijões, considerações até de ordem estritamente cotidiana, como sair da cama pelo lado contrário ao que você entrou, ou vestir o sapato na ordem inversa à que você retira o sapato, etc. Um verdadeiro filme de Jack Nicholson, que se apresenta como um pitagórico.
E as sugestões pitagóricas, nos dias de hoje, seriam consideradas a mais pura expressão daquilo que eles chamam de TOC, exatamente pessoas com esse tipo de sugestão bizarra de seguir comportamentos cotidianos de maneira obsessiva.

Muito bem, dando sequência a esse aperitivo à Platão, eu vou mudar de lugar. Nós vamos sair da Ásia Menor, da Turquia, e vamos para a Itália. A península itálica, que na época também era Grécia. E na época haviam escola de pensamento extremamente interessantes, e uma delas, muito conhecida da cidade de Eleia. E por isso, se você abrir um manual de filosofia, vai encontrar os Eleadas, que eram justamente os que pensavam nessa região da Grécia que era instalada na península itálica.
Lá em Eleia você tem a presença de uma figura extremamente importante pra nós, que é a figura de Parmênides. Figura central do pensamento pré-socrático, que recebeu de Platão um diálogo, pra ele sozinho, e acreditem, o diálogo de Parmênides com Sócrates é o único dos 35 em que Sócrates leva clara desvantagem. Então Parmênides, quem era? Um sábio de Eleia. E porque Parmênides ficou conhecido?

O que sobrou do pensamento de Parmênides sobrou na forma de fragmentos de um poema.
Fui a UERJ participar de um congresso sobre Parmênides, e levei um trabalho sobre a Aplicação do Pensamento de Parmênides a um Publicitário. Eu nunca vi tanta gente maluca na minha vida. Acho que pra gostar de Parmênides de fato é preciso do auxílio ou da intervenção de certos aditivos da alma. Eu penso que sim, pelo menos eu me senti ali em desvantagem, estavam todos turbinados. E tal como na natação, um aditivo falseia a equidade, ali eu confesso que passei três dias na UERJ e não entendi uma frase do que foi dito. Foi muito divertido, dessas coisas que vale muito pra gente saber aonde não deve nunca mais voltar.

Parmênides é pai de um princípio da filosofia, conhecido até hoje pelo nome de princípio da identidade. Qual o enunciado deste princípio? O seguinte: O que é, é. E o que não é, não é.
Então eu imagino que na mente dos senhores, alguns ai afeitos a fluxogramas, cinco W’s, quatro P’s, seis J’s, o solzinho — não é um solzinho? —, a empresa no meio e os vários públicos em volta, mídia… pra cada ponta do raio tem uma política de comunicação diferente, isso que na filosofia a gente chama de cinismo, dependendo do interlocutor, você diz uma coisa.
Mas, você que é afeito a isso, o professor entra e diz que o que é, é e o que não é, não é, e isso te desperta uma certa repugnância, porque a primeira reação é dizer isto é óbvio. Nossa! Se nós puxarmos o fio deste princípio, vamos encontrar inferências muito pouco óbvias, e eu vou destacar duas, porque eu não tenho tempo.

Quando você diz que o que é, é e o que não é, não é, você tem que inferir imediatamente que só é uma coisa e ponto final. Só uma coisa é. Ou se você preferir, para facilitar a sua vida, embora não seja a mesma coisa: Só existe uma coisa.
Então eu vejo que você já perdeu um pouco o rebolado, porque você não entendeu o que cargas d’água tem a ver a primeira frase com a segunda, então eu vou repetir: Se o que é, é e o que não é, não é, então só uma coisa é.

O senhor desculpa mas agora eu meio que boiei. Não boiou não.
Vamos imaginar que hajam duas coisas: a coisa A e a coisa B. E eu pergunto pra você o que é a coisa B, e você dirá: é a que não é a A. Pois então fudeu, dirá Parmênides, porque se B não é A, B não é, e portanto só é A, mas A não é B então também não é, razão pela qual é preciso que só A seja, B é o não-ser. B não é.

Se A é, portanto A é o ser, B é algo diferente do ser, algo diferente do ser não é. E pau no seu cu, diria Parmênides.

Qual é a segunda inferência? Não sei se você percebeu, mas nós estamos dentro da mesma problemática dos outros, o que têm por detrás da diversidade da mesa e da cadeira? A diversidade da mesa e da cadeira é ilusória, por detrás da mesa e da cadeira tem a mesma unidade de matéria. Então nós estamos diante de uma mesmíssima preocupação, uma certa hostilidade à diversidade aparente.
Qual é a segunda inferência do princípio da identidade? Se o que é, é e o que não é, não é, então o que não é, não se desloca. Não há movimento. Daí você perguntará porque. Resposta óbvia: O que é o movimento? O movimento é você sair de um lugar e ir pra outro onde não tem nada, ora, esse lugar aonde não tem nada, não é, portanto pra lá você não pode ir, porque o que não é, não é, razão pela qual você tem que ficar aonde está, que é o único que é, porque o outro lugar não é e o que não é, não é. Como que você pode ir para onde não é? Você só vai para a casa do caralho se a casa do caralho for, porque se ela não for, não tem como ir para lá. Se o que é, é e o que não é, não é, ir para o não ser, não é possível. Razão pela qual você não se desloca.

Naturalmente, alguns de vocês riem, mas é da própria ignorância, um pouco de nervosismo. Coisa assim: sou mesmo um imbecil. Mas não se preocupe, logo a gente volta a falar de trivialidades.

Mas Parmênides, ele é fundamental pra nós, por que ao dizer que só o ser é, e que se o ser é, ele não só, não é dois, como ele também não se movimenta, Parmênides vai oferecer à Platão os ingredientes que esse precisava para estabelecer o seu mundo das ideias.

Vamos pegar um exemplo de um livrinho achincalhado pelo mundo acadêmico, porque o mundo acadêmico tem muito ressentimento com tudo que faz sucesso.
E o livrinho é o Mundo de Sofia, qual é a vantagem do Mundo de Sofia? É que todo mundo entende, ao passo que as aulas da academia, ninguém entende porra nenhuma, então evidentemente, ficam bravos.

O que o cara do Mundo de Sofia explica? Por que ele é muito bom de exemplo. O exemplo da galinha: Quantas galinha haverá no mundo? Milhões. Alguma é igual a outra? Não, sempre haverá uma pequena diferença. Então, há um milhão de galinhas diferentes no mundo, no entanto se entrar pela porta uma galinha que você nunca viu, você identificará tratar-se de uma galinha, e a pergunta é, como cargas d’água você identifica que aquilo é uma galinha sem nunca ter visto aquela galinha? E a resposta é: Você é detentor da ideias de galinha, da galinha ideal, da essência da galinha, da forma perfeita de galinha, ou se você preferir, a verdadeira galinicidade. O que significa a essência da galinha? Por detrás de toda a acidentalidade aparente, a essência da galinha é aquilo que toda galinha tem que ter para ser uma galinha, e toda galinha, para ser uma galinha tem mesmo uma essência de galinha. Você como conhece a essência da galinha, identifica por trás da aparente monstruosidade daquele bicho, uma galinha, uma galinha diferente, singular, mas uma galinha assim mesmo, porque têm essência da galinha. Então por detrás da aparência da diversidade, uma única ideia de galinha que sempre existiu e sempre existirá.

Você percebe que graças à Parmênides, foi possível encontrar um único ser por detrás da diversidade aparente do ser percebido? Daquilo que é encontrado pelos sentidos.
E veja, se você perguntar para Platão, qual é a realidade? São as mil galinhas diferente que você flagra com os olhos, ou a ideia da galinha que você têm na sua alma?
E a resposta de Platão, é claro, a realidade é a ideia da galinha que você tem. Porque a realidade é uma e não se move, não se modifica, as galinhas que ciscam, que se movimentam e que morrem, são uma ilusão. Usa sombra, a ideia da galinha é a única realidade à que temos acesso. Graças a Parmênides.

Zenão também era Eleada, e em homenagem à Parmênides, seu mestre, tentou mostrar que esse sempre teve razão. E vai propor uma série de enigmas, que na história do pensamento vão ser lembrados como os enigmas de Zenão.
O mais conhecido deles é o da tartaruga, ou o da flecha, ou do corredor, ou de tudo aquilo que está supostamente se movendo.
Tomemos o corredor, o que me refiro é um atleta e não uma passagem entre uma habitação e outra.

O corredor vai correr três mil metros, chamemos o ponto de partida, o ponto P. O ponto de chegada, o ponto C. É dado o tiro e o corredor se precipita em direção ao ponto C.
Pondera Zenão, sem muito vício de pensamento, que para chegar do ponto P ao C, o corredor têm que passar pelo ponto M que é o ponto médio entre P e C. Este ponto médio de uma carreira de três mil metros é justamente aos mil e quinhentos metros, não há nenhuma pegadinha, estamos aqui em pleno acordo.
Chamemos esse ponto médio de M, ocorre que para que o nosso corredor chegue ao ponto M, é imprescindível que ele chegue ao ponto médio entre o ponto P de partida e o ponto M, que nós chamaremos de M’, aos setecentos e cinquenta metros. Ocorre que pra chegar no ponto M’, o nosso corredor tem que chegar ao ponto médio entre P e M’, que é o ponto M’’, a exatamente 375 metros do ponto de partida. Para chegar em M’’ o corredor têm que passar por M’’’, para chegar à M’’’, têm que passar por M’’’’. Para chegar à M’’’’, têm que passar por M’’’’’ e assim indefinidamente, de tal maneira que o corredor não sai do lugar.
O movimento é uma ilusão. O corredor não pode se mover.
Fantástico. Grande Zenão. E você fica aí, assim com essa aparência de prisão de ventre, sem saber o que dizer; Aparentemente Zenão têm razão, mas é óbvio que o corredor chega do outro lado, então que caralhos acontece para ele chegar do outro lado?
Quem vai resolver o enigma de Zenão é Aristóteles, mostrando que toda equação que envolve espaço tem que envolver tempo também. O espaço mutilado indefinidamente só faz sentido se houver uma mutilação correspondente do tempo, também indefinidamente. O que resolve o enigma de Zenão, mas quando Zenão propôs o enigma, ficou todo mundo com essa cara que você fez. Uma cara de quem comeu e não gostou.

Nós então, depois de passarmos por Tales de Mileto, pelos Pitagóricos, por Parmênides, nós não temos outro caminho senão chegar em Platão; E nesse momento eu pediria realmente, que você viesse comigo. Aqui a coisa começa a ficar mais séria.

Platão é certamente o mais influente pensador de toda história do pensamento. E você tem nesse curso, a oportunidade de ler um outro texto de Platão, até pra ter um gostinho do estilo, da forma de escrever, da maneira como ela propunha a sua filosofia.

Bem, Platão, como talvez já tenho ouvido falar, era um aristocrata. Nasceu bem. Já é o segundo da nossa trajetória que nasce bem. Era um bem nascido ateniense. Cidadão ateniense. A família de Platão, era uma família rica e muito próxima do poder. E aparentemente Platão, que não se chamava Platão — Arístocles, era o verdadeiro nome de Platão — ganhou o apelido de Platão por conta da sua constituição física.
Haverá quem diga que Platão tem a ver com ombros largos, por quê Platão devia ser jogador de polo aquático, ou tinha sido treinado para as olimpíadas, constituição robusta, um guerreiro, etc.
Gozado como eu sempre achei esse versão… É o mesmo que botar olho azul em Jesus Cristo…
Você já viu um intelectual fudido, jogando polo aquático?

Quanto mais o indivíduo se desenvolve esportivamente, menos ele tem tempo para desenvolver as atividades do intelecto. Basta você tentar abrir uma agência de modelo na física por exemplo, ou quem sabe fazer um submarino atômico na FAAP, dá no mesmo né.
Não vai dar certo. Professor, o senhor é uma usina de preconceitos, pois então faça!

Qual é a tese que eu pessoalmente acredito mais? É a tese de um professor americano que ensina em Massachusetts e que diz que Platão era chamado de Platão porque ele era roliço, gordinho mesmo, de tanto comer Cheesitos e eu acredito muito mais nessa hipótese do que num cara… Uma espécie de Hércules, uma versão idealizada.

Ele era na verdade um comedor de moussaka. Ele era redondo. O fato é que isso é a título de tornar o assunto interessante, até porque o que vem pela frente é mais abstrato.

Aparentemente até os vinte e oito anos da sua vida de oitenta anos, Platão nunca se interessou pela filosofia, portanto há esperança pra muitos. O mais influente pensador da história até os vinte e oitos anos… puff.
E porque que você imagina que eu saiba desta data precisa? É porque foi exatamente aos vinte e oito anos da idade de Platão que Sócrates morreu. E aparentemente Platão só começou a se interessar mesmo por produzir filosofia a partir da morte de Sócrates.
Foi a morte de Sócrates, e não exatamente a morte de Sócrates, mas a maneira como Sócrates se comportou diante da iminência da morte, que despertou Platão para o conhecimento da filosofia.

Muito bem, costuma-se dizer que Platão viveu oitenta anos e que aos quarenta anos ele fundou a academia, a maior universidade da época.
Tudo isso me parece muito previsível, oitenta anos de vida, aos quarenta academia, antes dos quarenta sem-academia, é tudo muito exato e no mundo da vida não costuma acontecer desse jeito, portanto tem muito historiador que diz que Platão não viveu oitenta anos coisa nenhuma, que a academia não foi fundada aos quarenta e que nada disso procede.
Que tudo isso é resultado de uma reconstrução pra dar certo. Sobretudo em quem gostava tanto de matemática.

Eu portanto não tenho a menor ideia. Não há nada na vida desses cara que não seja muito discutido, comentado.
Os diálogos de Platão, alguns dizem que são trinta, outros dizem que são trinta e cinco, há uma discussão sobre, digamos, a real autoria de alguns diálogos de Platão, mas vamos admitir que sejam trinta e cinco, teoria dominante.
Os diálogos de Platão costumam ser divididos em três grandes grupos. Aqueles diálogos que nós aqui no Brasil chamamos de diálogos de juventude, e que os ingleses da universidade de Oxford chamam de early dialogues. Os diálogos que nós chamamos de maturidade e que os ingleses chamam de late dialogues. E os que estão no meio que nós não chamamos de jeito nenhum e que os ingleses chamam, muito inspirados por Joel Santana, de middle dialogues.
Então eis ai essas três categorias. Os comentadores costumam dizer que esses três tipos de diálogos obedecem a um certo critério, que é a relação do pensamento de Platão com o próprio pensamento de Sócrates. Em outras palavras, os diálogos de juventude seriam diálogos onde Platão seria um mero explicador do pensamento de Sócrates, uma mídia, mais ou menos o papel que eu faço nos meus cursos, um apresentador do pensamento de Sócrates.
Então a influência do pensamento de Sócrates seria quase que completa nesta primeira categoria de diálogos.

Os últimos diálogos, pelo contrário, são diálogos em que ou Sócrates nem aparece, ou Sócrates aparece mas dizendo coisas que não poderia ter dito e que são na verdade… quer dizer Platão usa Sócrates para apresentar suas próprias ideias.
Perceba que há uma verdadeira inversão, enquanto nos primeiros diálogos Sócrates usa Platão para ser apresentado, nos últimos diálogos Platão usaria Sócrates para ser apresentado.

Por essas e outras costuma-se também dizer que os diálogos mais interessantes são aqueles do meio. Porque têm um pouco de tudo, um pouco do pensamento de Sócrates, um pouco do pensamento de Platão. São os diálogos mais verossímeis. São os diálogos que mais provavelmente aconteceram mesmo. Menos ficcionais.

Eu dizia da morte de Sócrates. E eu quero que você realmente venha comigo. Você pode ler sobre a morte de Sócrates no diálogo Apologia de Sócrates. É uma beleza. Professor onde que eu encontro isso? Não encontre não, vá no seu mecanismo de busca na internet, e ponha: morte de Sócrates. Pronto. Já vai vir um monte de texto pra você. Um dos que provavelmente virá é Apologia de Sócrates, mas se você fizer questão de comprar, saiba que em qualquer livraria você encontra na edição daquela L&PM Pocket à nove reais a Apologia de Sócrates também.

Tem pra todo gosto, caso você se encante pelo assunto, saiba que o diálogo Críton também trata deste assunto. Então você na verdade uma série de diálogos que vão se referir à morte de Sócrates. Eu se fosse você, não lia todos não, lê um pouco de um, um pouco de outro. É uma questão só, dá curiosidade de ver como é que um cara à quatrocentos e cinquenta antes de cristo escrevia. Não sei se você tem essa curiosidade, mas eu teria, pega lá e dá uma olhada. Se achou muito enroscado, para. Nem todo mundo é do ramo, mas dá uma olhada, vê como é que a coisa é apresentada.

O que é que nos importa aqui, é que Platão faz da morte de Sócrates uma questão ética maiúscula, que nós temos que encarar neste nosso momento do curso.
E qual é a questão ética maiúscula? Bem, como você sabe, Sócrates enchia o saco de todo mundo na cidade, era um indivíduo feio, você sabe que gente feia irrita mais que gente bonita.
Sócrates era um indivíduo, esse sim robusto, atarracado, os olhos muito perto do queixo, esbugalhados. Eu tenho a impressão que Sócrates lembrava muito um bulldog, nariz achatado, olhos esbugalhados. Uma figura fisicamente estranha. Mais detalhes não podemos dar. Mas não existe nenhum relato que diz que Sócrates encantava pela beleza. Todos dizem a mesmo coisa: era medonho, chamava atenção na rua, se tentasse entrar no shopping JK seria barrado na porta.

E Sócrates enchia o saco das pessoas na rua porque ele parava gente agrandada, gente importante, as pessoas diziam coisas e ele fazia perguntas de fundamento.
Tipo, mas que tesão na tal da Isis Valverde, aí ele falava, aah você acha ela bonita? Opa! Então nesse caso você deve saber o que é a beleza. Porque se você não sabe o que é a beleza como é que você sabe que ela é bonita.
Ai o cara: se liga o mamão! Você é um mala!
Ai o cara chegava e falava: Queria tanto que meu filho fosse corajoso, será que eu posso ensinar a coragem pra ele?
E o Sócrates dizia: Não sei.
— Ué mas como que você não sabe? Todo mundo dizia que você sabe tudo.
— Não. Eu não sei é nada. Como é que eu posso saber se é possível ensinar a coragem pra alguém se eu não sei o que é a coragem. Agora você, se me pergunta se é possível ensinar a coragem, provavelmente sabe o que é a coragem.
Aí o sujeito começava a tentar definir e ele avacalhava com as definições e depois o cara puto perguntava o que era e ele dizia — Não sei, eu falei que não sabia.
— O que eu sei é que você é um idiota. Eu pelo menos disse que não sabia.

Então o que aconteceu, ele começou a cutucar os cara. Daí os caras devem ter se reunido em torno do um churrasco. Os caras armaram uma picanha e disseram: nós temos que fuder esse cara, velho. Ele é muito folgado. Daí então abriram um processo acusando Sócrates de corromper a juventude e de profanar os deuses.

Ora, é uma acusação totalmente infundada. Você pode pegar tudo que foi dito sobre Sócrates e não consta nada. Pelo contrário, toda vez que Sócrates fala, ele fala dos deuses e tal. É absolutamente infundado. O fato é que Sócrates vai para o julgamento, deixa claro que aquilo que está sendo atribuído à ele é absurdo e aí cria-se um certo mal-estar.
Sócrates é condenado a tomar a cicuta, mas cria-se um certo mal-estar.
Fica evidente que houve uma perseguição. Que houve um tratamento casuísta para àquela norma. E aí, de certa maneira, arrumasse um jeito de Sócrates fugir. Na verdade os discípulos de Sócrates dão uma grana pro cara que toma conta, as autoridades também não fazem muito questão que Sócrates morra, desde que ele não aparece mais, então o que dizem pra Sócrates é isso: Olha, de noite você vai cair fora e depois você vaza.
Então aqui é o ponto, por que o que Sócrates vai dizer que não.

Eu tenho pra mim que a filosofia ocidental propriamente dita começa quando Sócrates diz não.
É claro que quem diz não à alternativa de sobreviver, de certa maneira cometeu suicídio e portanto talvez a filosofia ocidental comece mesmo com um suicídio.
É o que dirá o filósofo francês André Malraux quando diz que o suicídio é o único tema filosófico sério, porque a própria filosofia já começa com ele.

O fato é que Sócrates podia ter sobrevivido mas preferiu não sobreviver.
Quando alguém prefere não sobreviver, o que acontece? Você poderia dizer: Sócrates abriu mão da vida por sofrimento próprio. Não é o caso. Alguém que vivia tranquilamente. Que não era rico mas não era miserável e que já era idoso, setenta anos. Não era doente. Alguém poderia dizer: Sócrates morreu por amor à alguém, também é impossível. Você ama alguém. Alguém dispara contra esse alguém e você se coloca na frente. Você morre no lugar da pessoa. Também não é o caso.

Sócrates na verdade decidiu morrer por um princípio. E qual é o princípio? O princípio de legitimidade das instituições atenienses. O princípio de preservação da credibilidade das leis de Atenas.
Então no final das contas, o que é que você observa?
Que nós estamos diante de uma situação de grande complexidade, talvez a maior complexidade possível.

De um lado você tem um princípio ético importantíssimo que é o de lutar para continuar vivo, esse princípio ético é tão significativo que em grande parte das legislações hoje, o suicídio é considerado crime.
Portanto existe um princípio moral que é o princípio de conservação da própria vida. Esse princípio moral de certa maneira coincide com uma certa inclinação, com uma certa essência do vivente. Aquilo que depois Hobbes e Espinosa vão chamar de Conatos.
A luta por perseverar no ser. Isso é um princípio.

Sócrates, na hora de ponderar o que vai fazer, não recorre à esse princípio, porque ele estabelece uma hierarquia e ele coloca outro princípio como superior à este.
E o princípio que é superior à este é o princípio de conservação das leis da cidade.

Ora o que é que você está aprendendo aqui? Que nós estamos diante de um início de revolução aonde o que é mais importante não é necessariamente, nem a vida boa nem continuar vivo. A ética, aqui, pela primeira vez é entendida como uma forma de saúde coletiva. Como uma forma de saúde do todo, da sociedade, e não de uma ou outra pessoa individualmente considerada.
Então você percebe que você tem aqui N barbantes pra puxar na hora de interpretar o que está acontecendo. Nós estamos diante de um trabalho ético extraordinário.

Qual é a outra coisa que você aprende com Sócrates? É que a busca da própria sobrevivência, a preservação da própria sobrevida, nem sempre é o valor mais precioso.
Em outras palavras, é perfeitamente concebível imaginar uma decisão ética que tome outro princípio como superior em relação ao da própria vida.
E naturalmente, quando você pergunta a um kamikaze porque ele entra naquela porrinha que vai explodir com ele dentro, ele é o primeiro a te explicar o que eu estou tentando inferir do comportamento de Sócrates. Existem princípios que podem superar o princípio da luta pela própria sobrevivência.

E você percebe, que, o kamikaze e o Sócrates estão muito próximos, porque os dois colocaram por cima da própria sobrevivência, a sobrevivência do coletivo ao qual pertencem.
Não é muito difícil continuar interpretando. E é muito importante você lembrar que Platão é um grego, da espinha dorsal dominante do pensamento grego, me refiro à Parmênides, Platão, Aristóteles e os estoicos. E todos esses têm uma premissa que já conhecemos.
Zeus botou ordem na casa. Antes era uma zona e Zeus organizou a zona e instituiu o Cosmos. Ora, no Cosmos, há leis naturais.
O vento ventando poliniza.
A maré mareando fertiliza.

Mas e na convivência humana? Haverá leis? Leis escritas por sábios e que permitirão que as sociedades humanas sejam tão ordenadas, quer dizer, tão cósmicas, quanto é o cosmos da natureza?
As leis garantem que os nossos micro-universos sociais estejam perfeitamente ajustados ao todo cósmico do universo. Sendo assim, se você blasfema contra às leis da cidade, está indiretamente blasfemando as leis de Zeus. O que é para Sócrates, inconcebível.

Nesse sentido podemos lembrar de Ulisses. A Odisseia. E a sempre presente passagem de Ulisses pela ilha de Calypso.
Calypso em grego, Caloptaine, esconder. De fato, Ulisses estava escondido ali. Não por vontade própria, foi escondido por Calypso. Ulisses, herói da guerra de troia, que só queria voltar pra casa.
Obrigada a deixar Ulisses partir, Calypso tenta uma última astúcia, eu te dou a eternidade e a juventude. Ulisses declina. E volta para Penélope.
Professor, o que caralhos tem isso haver com Sócrates?
Muito coisa!
Afinal de contas, Sócrates optou por não continuar vivendo e Ulisses também.
Porque se alguém te oferece a eternidade e a juventude e você não aceita, você preferiu a finitude.
E quem prefere a finitude, talvez não tenha se suicidado ali, mas escolheu morrer, e quem escolhe morrer protagoniza um tipo particular de suicídio.

Agora, porque que Ulisses não aceitou a proposta de Calypso? Porque a proposta de Calypso blasfemava contra a ordem, tanto quanto a proposta do guarda de Sócrates blasfemava contra as leis da cidade. É a mesmíssima relação.
Ulisses prefere uma vida onde ele vai morrer, mas do jeito que tem que ser, no lugar certo, lá em Ítaca, do que uma vida eterna no lugar errado.
Sócrates prefere morrer em Atenas, do quê continuar vivendo foragido, em Tebas, em Esparta, onde quer que seja.

Perceba, aparentemente distantes, as histórias são muito próximas. Sócrates e Ulisses nós ensinam a mesmíssima coisa: Existem princípios que superam a nossa própria eternidade. A nossa própria sobrevida. A nossa própria vida, se você preferir.
Portanto, de certa maneira, não faltaram comentadores para afirmar que a grande lição de Sócrates é essa. A ética é a superação da própria vida. É a transcendência em relação a própria vida. E quem não entendeu isso é escravo da própria sobrevida, é um suma um animal.
O nosso traço de humanidade está justamente na prerrogativa que temos de deliberar, inclusive na contramão da própria vida.

E ai meu meus amigos, poxa vida, se é possível deliberar na contramão da vida em nome de princípios maiores dos quais você não abre mão, porque não abre mão.
O que dirá o emprego? Se tem gente que abre mão de viver para não profanar princípios, o que dirá o emprego? Você dirá, não entendi professor. Como que não entendeu?

Você começa a trabalhar e você percebe que o que se espera de você é um comportamento que ofende princípios que não são os seus. Você, pra não perder o emprego, você se curva à novos princípios. Como por exemplo foco no resultado no lugar de dizer a verdade para o cliente. É um exemplo simples.
E você sabedor que a sociedade espera de você sucesso na empresa, sabedor que você será julgado pela sua ascensão profissional, você acaba preferindo tudo isso aos princípios que são os seus.

A lição de Sócrates é a lição oposta. Naturalmente podemos ir mais longe.

Podemos ir mais longe por que se filosofar é aprender a morrer, se a alma sempre existiu e o corpo perece, se a vida é um delta-t anômalo e alma se vê obrigada a habitar com o corpo e com isso tem que carregar um saco de batata, um fardo durante um certo tempo pra depois voltar a estar livre e voar.
Se, de certa maneira estamos esperando o corpo morrer pra voltar a ter uma situação de idealidade espiritual. — Já vivi setenta anos pelo amor de deus! Você quer que eu saia daqui correndo pra continuar vivo se agora que eu vou comer o filé mignon!
Porque a ideia de morte é essa. É agora que eu vou comer o filé mignon.
É agora que a minha alma vai comer o filé mignon, exatamente porque o meu corpo não vai precisar de filé mignon nenhum mais…
É agora que vai dar tudo certo e você quer que eu saia correndo pra viver cinco anos mais, escondido dentro de uma caverna. Você é doido.

Você percebe então que as lições da morte de Sócrates são interpretadas ao infinito e de certa maneira muitas dessas lições você encontra em outros mestres espirituais. E aqui a comparação de Sócrates com Cristo é inevitável.

Cristo também foi injustamente processado, cristo também foi injustamente condenado.
Á cristo também foi dada possibilidade de cair fora, cristo também não aceitou cair fora.
E portanto você tem aí um conjunto de semelhanças muito interessante pra mostrar o quanto esses mestres espirituais, de fato merecem essa denominação.

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