Uma introdução à Nietzsche – Clóvis de Barros Filho

O que esse autor pensa de maneira geral?
Pra chegarmos a esse ponto é preciso vasculhar suas ideias centrais, não é possível como em Kant, isolar a moral do resto.
Com Nietzsche isso não é possível.
Apresenta-se nesta aula o que Clóvis costuma chamar de chaves do castelo, conceitos chaves, jargões, essenciais para o entendimento da obra do autor.
Desenvolver-se-ão três chaves.

Advertência: A obra de Nietzsche é muito diferente dos outros autores do ponto de vista formal.
Em Kant, há um livro para moral, um para estética…
Isso não acontece na obra de Nietzsche, tudo trata de tudo, o que facilita e dificulta ao mesmo tempo. Por um lado tem-se que estar sempre lidando com todo o pensamento a todo tempo, de outro lado, para se identificar o que ele pensa sobre determinado assunto é necessário puxar um fio, e nesse puxar de fio, vem tudo que o autor pensa sobre tudo. Isso torna a obra muito mais difícil de ser estudada.
Ainda do ponto de vista formal, vale a pena lembrar que Nietzsche não escreve textos, como numa prova ou TCC. Nietzsche filosofa por intermédio de aforismos. São frases curtas, eventualmente um parágrafo. Esse aforismos vão sendo colocados um atrás do outro, na surpresa.
Essa maneira de se manifestar é profundamente coerente com a filosofia manifestada.
Nietzsche faz parte desses pensadores que acreditam profundamente que aquilo que vem à consciência é uma espécie de subproduto pequeno e insignificante de toda a psique;
Ele está absolutamente convencido de que a nossa psique é absolutamente maior do que as coisas que vêm à nossa cabeça.
As coisas que vêm à nossa cabeça, o que chamamos de consciência, seria uma espécie de holofote.
Imagina você no mar e você tem um farol. Se você liga o farol, você ilumina uma bola do mar, se você mudou o farol de lugar, você ilumina outra bola, e outra bola.
A consciência é mais ou menos assim.
É um recorte insignificante do todo. E a medida que as coisas vão passando pela sua cabeça não é que outras desapareceram, apenas não estão sendo iluminadas naquele momento.

Inconsciente em Freud: não há nada de novo, está tudo dado.
A consciência é uma espécie de recorte casual da psique.
Quem movimenta o farol? Não é o Eu, porque o Eu é a própria consciência.
O Eu não poderia ser a água iluminada e o faroleiro ao mesmo tempo.
Quem movimenta o farol é a vontade de potência, tua energia vital, que é para Nietzsche a tua essência.
Pra Nietzsche o que passa pela cabeça tem muito haver com o que você pensa, e o que você pensa tem muito a ver com as suas oscilações de potência.
Não é um Eu consciente que controla o farol, pelo contrário, o Eu consciente é o resultado da iluminação do farol, que é inconsciente.
Você não controla o que passa pela sua cabeça, você não é soberano, você não é senhor na sua própria casa.
Nietzsche escreve na medida que as coisas vêm a sua cabeça; Exatamente o que aprendemos a não fazer. Redação. Pegue uma folha de rascunho, vomite tudo vem a sua cabeça sobre um assunto. Depois você vai organizando, agrupando em ideias, depois introdução e conclusão.
A redação final dependeu do trabalho lógico, racional de reorganização das ideias que vieram à consciência em forma bruta, caótica.
Infelizmente, você desaprendeu, não faz mais folha de rascunho. É parte do resultado da faculdade: o empioramento das atividades intelectivas.
Nietzsche não se dá ao trabalho de organizar as ideias em capítulos, como faria um cartesiano normal.
Nietzsche joga os aforismos exatamente na sequência que vêm à sua cabeça. Ele é primeiro a dizer que o que ele escreve não tem a menor pretensão de uma verdade válida para todos. É apenas o que vêm a sua cabeça.
Tudo aquilo que você for aprender de pós-moderno, tipo Vattimo, Maffesoli, Bauman são nietzschianos. Livros que não tem capítulos, não têm citação de nota de rodapé, é o que vêm à cabeça, se outro já disse, foda-se.
Não tem preocupação de colocar referências, sem obrigações;
Essa é a razão pela qual Nietzsche escreve desse jeito. Há um coerência entre a maneira como Nietzsche filosofa e a maneira como ele apresenta a sua obra.

A obra de Nietzsche entrou na moda, na segunda metade do século 20, por conta dos pós-modernos e alguns pensadores nietzschianos que fizeram muito sucesso.
Dois pensadores franceses importantes: Michel Foucault, tem livros muito interessantes e é um nietzschiano assumido. Foucault é um verdadeiro deus em meios acadêmicos. Esse é o primeiro autor que trouxe Nietzsche pra moda.
Derrida escreveu muita coisa em cima da obra de Nietzsche, de maneira ainda mais confusa, e tem uma fama incrível nos estados unidos, muito embora o professor não veja nele nenhuma originalidade.

Os livros de Nietzsche são muitos, seria muito interessante obedecer uma ordem adequada.
Existem alguns livros menos alucinados do que outros. Todos são muito delirantes, se olharmos de uma perspectiva cartesiana normal, mas uns são mais delirantes do que outros.
Existe uma tendência à ler Assim falava Zaratustra, um livro da moda. Ao ver do professor, esse deveria ser o último, é sem dúvida o mais difícil. Se for dar o primeiro passo para ler Nietzsche — ele mesmo, comece pelo livro O Crepúsculo dos Ídolos, em seguida Além do Bem e do Mal, Genealogia da Moral, Gaia Ciência, e assim você vai. Mas o Zaratustra fica pro fim, por que de todos, é o mais hermético.

Alguns comentadores da obra de Nietzsche se destacam: na USP, Scarlett Merton, um monte de livros, alguns de caráter introdutório. Uma antiga vedete da universidade.
Unicamp, Oswaldo Giacoia; Viviane Mosé, uma professora de filosofia capixaba, que trabalha na casa do saber do Rio. Tem um livro magnífico, Nietzsche e a Grande Política da Linguagem.
A respeito da vida do Nietzsche muita coisa foi escrita, inclusive títulos de vulgarização de aeroporto, Quando Nietzsche Chorou. Há biografias mais acadêmicas. A vida de Nietzsche é muito interessante de ser lida, e aparentemente foi um tumulto só. E como Nietzsche acreditava que tudo que você pensa tem a ver com as coisas que aconteceram com você, então, no caso do Nietzsche, vale muito a pena conhecer a sua biografia.
É completamente diferente do Kant, pois na vida do Kant não aconteceu nada, talvez por isso ele tenha dito as coisas que disse.

Nasceu em 1844 e morreu em 1900. Do Nietzsche para o Kant tem um século. Nietzsche é um filósofo da segunda metade do século 19. Quando nasceu, Marx estava escrevendo os famosos manuscritos de 1944, portanto é um pouco mais novo, mas são os maiores desse período.

Feitas todas essas advertências, vale a pena apresentar essas três chaves propostas pelo professor.

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