Niilismo – Nietzsche – Clóvis de Barros Filho

A primeira chave do castelo de Nietzsche é a ideia de niilismo. Nietzsche usa esse termo à torto e à direito. Se não se estiver a par de seu significado, a compreensão da obra fica debilitada.
A crítica ao niilismo é uma ideia que está presente em todos os livros de Nietzsche.
Eis uma chave que se você não tem, você não entra no castelo da compreensão da filosofia nietzschiana.
A graça desta chave é que, não só o conceito é extraordinariamente relevante, mas o sentido que Nietzsche dá a niilismo é rigorosamente o contrário do normal.

Nihil vem do latim que quer dizer nada. Portanto niilismo tem necessariamente a ver com negação, vazio, falta.
Se você perguntar no ponto de ônibus o que é niilismo, as pessoas dirão, o sentido normal da palavra, niilismo é uma forma de conduzir a vida sem valores, sem ideais, sem valores superiores. Uma forma de conduzir a vida desamarrada de princípios que transcendem à ela.
Exemplo: Alguém te propõem um negócio que envolva uma ação ilícita mas que te permita um ganho significativo. Você diz, isso eu não faço, porque isso ofende a minha concepção de honestidade.
O que você está dizendo é que existe uma espécie de critério de existência que você aplica à sua existência. Esse critério está acima das ocorrências da vida e se impõem a todas elas.
Mais ou menos assim, aconteça o que acontecer, esse princípio, valor superior, vai conduzir a minha conduta.
Niilismo é uma vida sem esses valores superiores. É aquele que nega a existência de valores superiores. Isso é o niilismo mesmo na filosofia que não a de Nietzsche.
Levar a vida à luz do que acontece, portanto abrindo mão de qualquer critério que se imponha de fora, que transcenda, paire por cima.
É muito comum ouvir na poesia, deixa a vida me levar. O que pode fazer pensar numa postura niilista, no seu sentido comum. É uma negação de valores superiores, porquê quem pauta a vida por valores superiores, não deixa a vida levar.

A título de exemplo, surge uma oportunidade de você participar de uma festa, em que você vai ter prazeres de todos os tipos. Aí você diz, “Eu não vou a esse tipo de festa, porque sou monogâmico, mono-vaginal, não bebo álcool.” Você pode dizer um monte de coisas. Você não deixou a vida levar. Você puxou o freio de mão. Você fez triunfar um valor superior à uma situação que se apresentou.
Existe um valor superior e você pode deixar a vida levar ou não. Alguém esquece uma carteira e você não pega; Você percebe que está o tempo inteiro pautado por um certo número de critérios existenciais que Nietzsche chama de valores superiores.
Niilismo no sentido comum é ir vivendo à medida que a vida vai aparecendo. Vamo deixar rolar pra ver como é que fica.
Você tem um outro tipo de proposta de vida, em que aconteça o que acontecer eu já sei o que eu vou fazer.
São dois tipos de procedimentos, um está esperando para agir de acordo com a oportunidade, o outro sabe que independentemente da oportunidade, ele terá condutas, critérios pautados pelos princípios.

Quando se fala em crise dos valores, o que se está dizendo é que a nossa sociedade tende ao niilismo, à erosão dos valores, o que Lipovetsky chama de Crepúsculo do Dever, em outras palavras, você vai vivendo segundo o paradigma de Zeca Pagodinho, ou de Skank. Ou seja deixando a vida levar e fodam-se os princípios ou valores superiores.

Vamos imaginar que você tenha um filho adolescente, que vai buscando o prazer, buscando diminuir a dor, portanto ele vai vivendo a moda de John Stuart Mill e foda-se o mundo que eu não me chamo Raimundo. Esse é o niilismo da juventude pós-moderna.

Você tem aí um sentido pra niilismo, alguém que vive ao sabor dos encontros com o mundo e você tem a ideia daquele que respeita valores superiores, que é aquele que age com princípios e portanto, alguém que perde oportunidades em nome de princípios.

O grande problema é que quando Nietzsche vai falar de niilismo, ele dá a palavra o sentido contrário.
Veja só você como a coisa é complicada, e o que é pior, ele não conta. Por que ele podia dizer, eu vou chamar niilismo o contrário do que todo mundo chama. Não, ele não dá essa explicação, porque é o tipo de cara vai pondo o que vem a cabeça e foda-se o leitor. Não é um figura com viés professoral.
O que ele chama de niilista, é justamente aquele que pauta a vida por valores, aquele que tem princípios e vive de acordo com os princípios.

Então vamos dar exemplo de niilista. O cristão cristão. Que tem princípios, o mais relevante deles é o amor ágape.
O cristão pauta sua vida por princípios e não deixa a vida levar. Para Nietzsche ele é um niilista.
Outro exemplo de niilista é o comunista. Tudo deve girar em torno da luta de classes em nome da revolução e de uma sociedade sem classes. Também vive em função de princípios. A boa vida para um comunista é a que articula a revolução e o fim das classes sociais, portanto o fim do capitalismo.
O cristão é um niilista, o comunista é um niilista, mas também o liberal é um niilista, o anarquista, os direitos humanos, a democracia, e toda essa bosta. Você pauta a vida em função de idealidades.

Se o cristão é um niilista e ele tem valores, o que ele nega? O que está faltando? O que é o nada agora? Por que se na concepção normal, niilista é o que nega os valores, na concepção de Nietzsche o niilista que têm valores nega o que?
Nega o mundo da vida.

O que é o pensamento niilista? Por você ter ideais, acreditar em valores superiores e absolutos, você nega o mundo do que acontece, dos encontros da matéria, dos afetos, dos corpos, das energia vitais, das sensações.
Se para o senso comum o niilista é aquele que nega os valores, para Nietzsche o niilista é aquele que nega a terra, os corpos, as sensações, as pulsões.
Quais são as frases típicas de Nietzsche:
Em nome do céu nega-se a terra.
Em nome do céu blasfema-se contra a terra.
Em nome de valores absolutos e superiores, nega-se os corpos e os seus tesões;
Esse é o niilista.

O niilista é aquele que em nome de uma monogamia inventada, perde a oportunidade de uma grande bimbada, isso é um niilista. Esse é um desgraçado mesmo.
Nossa, espetáculo, formas exuberantes, a pessoa chega mostra a foto no Facebook, na praia de fio dental. Um negócio imperdível, uma coisa fantástica. O cara fica doido, vai pra cá, vai pra lá. E na hora H, e ai? vai me comer? Sabe o que é, eu tenho que te explicar uma coisa, eu assumi um compromisso… Esse é um niilista.
Esse crítica ao niilismo não é endereçada principalmente a opinião comum das pessoas, mas ela é endereçada sobretudo às próprias filosofias. Às posturas filosóficas tradicionais.

Exemplos filosóficos de nihilismo segundo Nietzsche.
O primeiro grande niilista,segundo Nietzsche, é Platão.
Platão vai falar de mundo sensível e mundo inteligível.
O mundo inteligível só é abordável pela alma imaterial.
O mundo inteligível é constituído por verdades absolutas, valores absolutos, coisas inquestionáveis.
E o mundo sensível é um mundo de ilusão.
Então para Platão a verdadeira realidade está nas idéias do mundo inteligível.
O que eu vejo com o meu corpo é uma ilusão.

É isso que te ensina a alegoria da caverna.

Ele nega o mundo das coisas sensíveis e exalta o mundo das coisas inteligíveis;
Ele blasfema contra a terra em nome do céu;
Ele venera o além em detrimento do aqui mesmo;
Ele cospe na matéria em proveito do imaterial.
O Platão é o pole-position do niilismo.
O Nietzsche não é o tipo de cara politicamente correto, ele mesmo diz.
A crítica direta à Platão está no livro Crepúsculo do Ídolos, no capítulo consagrado à Sócrates, que tem como título O Caso Sócrates. Esse excremento de gente, figura escrota, ficava enchendo o saco de todo mundo, um viado do caralho, um corno manso. Tá tudo no livro, daí pra pior. O primeiro exemplo de niilismo, o platonismo.

Segundo exemplo de niilismo que Nietzsche poderia dar.
Na sequência, a segunda negação da terra, é o pensamento aristotélico. Só que mais sutil, porque se pra platão, a referência é o mundo inteligível, o mundo das ideias, que basicamente é constituído por números, que no final das contas, é disso que se trata reduzir tudo à matemática, pra Aristóteles, qual é a grande referência?
É o cosmos. O cosmos é uma certa ideia do mundo. Em nome desse mundo organizado, o vento venta, a maré mareia, o sapo sapêia, e você tem um papel dentro do universo, é como uma de peça dentro de uma máquina, você tem que agir em harmonia com a máquina, tem que agir de acordo com o que a máquina espera de você, por que só assim você vai ser feliz.
Estão querendo te fazer engolir, que se a máquina espera de você que faça tal coisa, se não fizer tal coisa vai estar em desarmonia. Cometendo Íbris, pecado de arrogância, desmesura. O pior dos pecados. Quando você encaixar com o vento, com a maré e com o sapo, viverá em eudaimonia.

Que dizia Nietzsche da reflexão cósmica de Aristóteles? É um escroto igual. De novo o cara te amarrou. De novo você não conta nada. Você não passa de uma peça numa idealidade cósmica que só existe na cabeça de um desmiolado, de novo, um modelo mental que escraviza a vida.
Enquanto Platão escravizava a vida no mundo das idéias, Aristóteles escraviza a vida pela ideia de cosmos. No final de contas o filosofia aristotélica é isso, entrar na linha com o universo.
A vida boa é buscar a excelência sendo a engrenagem da máquina. E se você quiser fazer diferente? É uma blasfêmia cósmica. É uma dominação como qualquer outra. Eu invento que existe um universo finito, ordenado como uma máquina, ninguém pode ver esse universo. Olha! o vento venta, e porque o vento venta a maré mareia, e o sapo sapêia, de fato, então você tem que dar aula. Por que você faz parte de tudo. Mas como você sabe que é isso? É óbvio. De novo um modelo mental escraviza a vida.

Terceiro exemplo de niilismo: Os monoteísmos. Deus está fora daqui, deus criou o mundo, no final das contas além do mundo em que vivemos, existe um mundo de almas, cada um chama de um jeito, céu, paraíso, daí você percebe que a vida mais adequada é aquela que busca a eternidade. E de novo você escraviza a vida em nome de um modelo mental, você blasfema contra a terra em nome do céu.

Se formos ler O Nome da Rosa de Umberto Eco você pode até achar que essa coisa de você se privar de satisfazer as pulsões em nome de deus é alguma coisa de idade média. A idade média é agora. O professor passou dois anos morando em um lugar na Espanha, onde as pessoas se policiavam para inibir as satisfações das pulsões o tempo inteiro. As portas não tinham tranca.
Os monoteísmos blasfemaram contra o mundo da vida em proveito de uma eternidade fora daqui. Esse é um niilista clássico. Niilista fino.

Existem é claro muitos outros de exemplos de niilismo não religioso.

Os homens inventaram o ideal para negar real.
Eu vou trazer pra vocês algumas frases muito conhecidas do Crepúsculo dos Ídolos para que isso comece a ficar mais familiar.
Vejam o que diz Nietzsche: ”Melhorar a humanidade, eis a última coisa que eu vou prometer”;
Então o que isso quer dizer? O mundo das ideias de Platão: picaretagem. O cosmo aristotélico: picaretagem. O deus das religiões: picaretagem.

A pergunta então é: O que você vamos pôr no lugar? Como por exemplo, fazem como aqueles que dizem: se não é Cristo é Maomé, se não é isso é aquilo. Se você espera que eu vá trazer pra você uma verdade no lugar das outras, se fudeu, eu não tenho nenhuma verdade para lhe trazer.

“Melhorar a humanidade é a última coisa que você pode esperar de mim.”
Melhorar a humanidade é propor no lugar do deus um deus melhor.

“Não esperem de mim que eu erija novos ídolos.”
Por que o ídolo é o mundo das ideias de Platão, é o deus, é o cosmos, é toda essa parafernalha que pairaria sobre a terra e que regeria a vida.

Crepúsculo dos ídolos.
Ídolos são os valores superiores e crepúsculo por que segundo Nietzsche, as pessoas estariam se dando conta de que são todos uma grande picaretagem (há verificar).

“Que os ídolos aprendam de uma vez por todas, o quanto custa ter pés de argila.”
Em outras palavras, você pega um deus todo poderoso, você pimba e quebra tudo.
São aparentemente grandiosos e no entanto não se sustentam de pé.
E é exatamente por isso que você vai entender agora uma grande expressão que Nietzsche usa para denominar a sua própria filosofia, que é a filosofia do martelo. Expressão que ele usa em todos os livros.

Por que filosofia do martelo? A pergunta é, ele martela o que? Ele martela os ídolos.
E quem são os ídolos no pensamento nietzschiano? Todo tipo de modelo mental que escraviza a vida.
Exemplo, foi lançado um best-seller da literatura mundial, o livro tem como título o Executivo e o Martelo, então é claro, você lança isso no espaço empresarial, a pessoa diz: O que tem a ver o executivo com o martelo? — Me de uma martelo. Onde está o executivo? Sou eu. Então eu acho que agora você entendeu, eu vou te dar uma martelada. Agora é uma martelada, nele? Não. É uma martelada no que ele pensa. Todos os executivos pensam as mesmas coisas, todos dizem exatamente as mesmas coisas. Eles falam de transparência, eles falam de responsabilidade social.

A filosofia do martelo é o Nietzsche martelando as certezas que são todas patrocinadas por modelos mentais que lhes dão fundamento. Mas um fundamento frágil.

A filosofia de Nietzsche se apresenta então como uma desconstrução. Se algum dia você for estudar o Heidegger, ele também usa a palavra desconstrução. Se você for estudar o Derrida, que é um grande vedete, um grande golden-boy da filosofia do final do século vinte, ele também usa a palavra desconstrução.
Tudo isso é uma influência nietzschiana.
O que significa desconstruir? É mostrar que as certezas são incertas. Que as referências não tem fundamento. Tudo paira na mais absoluta frivolidade.

“Derrubar os ídolos, eis o meu verdadeiro métier.”

“A invenção de ideal é a mentira maior, maldição que oprime a realidade.”

“A humanidade tornou-se mentirosa e falsa até o mais profundo de seus instintos, até a adoração de valores contrários à outros que poderiam garantir um belo futuro.”

Essa é a primeira chave do castelo. Todo filosofia de Nietzsche é uma filosofia de desconstrução.
Aí você fala, somos todos iguais. por isso não se pode… Da onde você tirou essa igualdade? É uma espécie de ídolo que Nietzsche soca até sangrar. E ele vai dedicar um livro inteiro a isso, que é a Genealogia da Moral.
Quem foi o filha da puta que disse que nós somos iguais?
É evidente que derrubar os ídolos é a primeira tarefa.
Portanto, crítica do niilismo. Desde de que você entenda que niilismo é a negação das pulsões em nome das verdades absolutas.

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